No cristianismo, o conceito conhecido como império do mal não se refere a uma instituição única, formal ou claramente identificável. Trata-se de uma realidade ampla e complexa que atravessa toda a narrativa bíblica e acompanha a própria história da humanidade. Sob a perspectiva cristã, com ênfase na teologia protestante, esse império é compreendido como um sistema espiritual, histórico e cultural que se opõe ao governo de Deus e aos valores do Seu Reino, atuando de maneira organizada no mundo marcado pelo pecado, ainda que sempre limitado pela soberania absoluta do Senhor.
A Bíblia apresenta o mal, primeiramente, como uma força espiritual real. Satanás é descrito por Jesus no Evangelho de João, capítulo doze, versículo trinta e um, como o príncipe deste mundo. O apóstolo Paulo afirma, na Segunda Carta aos Coríntios, capítulo quatro, versículo quatro, que ele é o deus deste século, que cega o entendimento dos incrédulos para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo. Ainda segundo Paulo, na Carta aos Efésios, capítulo dois, versículo dois, ele é identificado como o príncipe da potestade do ar, que atua nos filhos da desobediência. A teologia protestante reconhece essa atuação como real e efetiva, mas jamais como um poder equivalente ao de Deus, pois se trata de um domínio temporário e subordinado dentro da história da redenção.
Essa realidade espiritual se manifesta de forma concreta na história por meio de estruturas humanas de poder. Ao longo das Escrituras, impérios como o Egito, a Babilônia e Roma são apresentados não apenas como forças políticas, mas como símbolos espirituais de pecados específicos que se levantam contra Deus. O Egito representa a opressão e a escravidão, um sistema que submete o povo de Deus à servidão e resiste à libertação divina, conforme registrado no livro do Êxodo. A Babilônia simboliza a soberba e a idolatria, exaltando o poder humano, a autoglorificação e a corrupção espiritual, denunciadas pelos profetas e retomadas no livro do Apocalipse. Roma, por sua vez, encarna a perseguição institucionalizada e a pretensão de autoridade absoluta, exigindo lealdade que pertence somente a Deus e se opondo diretamente ao senhorio de Cristo, como refletido no contexto histórico do Novo Testamento.
O livro do profeta Daniel, especialmente no capítulo sete, apresenta esses reinos por meio da imagem de bestas, uma linguagem profética que revela a desumanização do poder quando ele se absolutiza e se afasta da justiça divina. O livro do Apocalipse retoma essa mesma simbologia ao descrever sistemas políticos e religiosos que exigem devoção total, perseguem os fiéis e se colocam no lugar de Deus, como é apresentado de maneira clara no capítulo treze do Apocalipse.
Entretanto, o império do mal não se limita a grandes potências históricas ou a estruturas estatais visíveis. O Novo Testamento amplia essa compreensão ao apresentar o mundo como um sistema de valores corrompidos, marcado pelo orgulho, pela injustiça e pela rejeição da verdade divina. O apóstolo João afirma, em sua Primeira Carta, capítulo cinco, versículo dezenove, que o mundo inteiro jaz no maligno. O apóstolo Paulo exorta os cristãos, na Carta aos Romanos, capítulo doze, versículo dois, a não se conformarem com os padrões deste século, mas a serem transformados pela renovação da mente. Na teologia protestante, essa dimensão ética e cultural recebe atenção especial, pois enfatiza a responsabilidade individual do cristão em viver sob a autoridade das Escrituras e resistir às ideologias que normalizam o pecado.
Em contraste direto com esse sistema está o Reino de Deus, eixo central da fé cristã. Jesus declara claramente, no Evangelho de João, capítulo dezoito, versículo trinta e seis, que o Seu Reino não é deste mundo, indicando que ele não se estabelece pelos mesmos meios do poder humano. Enquanto o império do mal se sustenta na força, na mentira e na dominação, o Reino de Deus se manifesta por meio da verdade, da justiça, do arrependimento e da graça. A teologia protestante ensina que esses dois reinos coexistem no tempo presente, mas permanecem em oposição constante até a consumação final da história.
A esperança cristã, firmemente afirmada na tradição protestante, aponta para a derrota definitiva do império do mal. A obra redentora de Cristo, inaugurada na cruz, garante que todo poder contrário a Deus já foi vencido em essência, embora sua manifestação plena ainda aguarde o juízo final. Os capítulos dezenove e vinte do livro do Apocalipse descrevem a queda dos sistemas que se levantam contra o Senhor, o julgamento das forças do mal, a derrota final de Satanás e o estabelecimento definitivo do reinado de Cristo, reafirmando que o mal, embora ainda atue no tempo presente, é transitório diante da soberania eterna do Filho de Deus.
Assim, sob a ótica cristã com ênfase protestante, o império do mal pode ser compreendido como um domínio espiritual liderado por Satanás, manifestado em estruturas humanas opressoras, sustentado por um sistema cultural contrário a Deus e colocado em oposição direta ao Reino de Cristo. Trata-se de uma realidade presente, mas já derrotada em sua essência, aguardando apenas sua consumação final. Essa compreensão não conduz ao medo, mas à vigilância espiritual, à fidelidade às Escrituras e à esperança firme na vitória definitiva do Reino de Deus.
Ronaldo Morenno é teólogo, professor devidamente registrado no Ministério da Educação e jornalista profissional, matrícula MTB 0096132, São Paulo.