RONALDO MORENNO

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Diversificar para sobreviver: lições bíblicas em tempos de crise


Em meio à grave crise econômica que assola o Brasil, um antigo ensinamento bíblico se mostra mais relevante do que nunca. Em Eclesiastes, capítulo onze, versículo dois, lemos: “Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra.” Embora a palavra repartir geralmente se refira a dividir ou distribuir, no contexto do livro de Eclesiastes, o verbo repartir está ligado à administração prudente de recursos diante da incerteza do futuro. 
A expressão “com sete, e ainda com oito” indica amplitude, multiplicidade e prevenção, não apenas generosidade. Por isso, muitos intérpretes entendem que repartir envolve espalhar riscos, o que, em linguagem moderna, se aproxima do conceito de diversificação.

Esse princípio de prudência também é reforçado em outros textos de Provérbios. Em Provérbios, capítulo vinte e um, versículo cinco, “Os planos do diligente conduzem à fartura, mas a pressa excessiva leva à pobreza”, evidenciando a importância do planejamento. Já em Provérbios, capítulo vinte e sete, versículos vinte e três e vinte e quatro, o texto nos lembra que as riquezas não são permanentes e que cuidar de múltiplas fontes de sustento é essencial para garantir a sobrevivência diante de dificuldades.

A própria história bíblica traz exemplos concretos de pessoas que, conscientes da imprevisibilidade da vida, exerceram diferentes funções ao longo da vida. Paulo, além de apóstolo, trabalhava como fabricante de tendas para garantir seu sustento, conforme registrado em Atos dos Apóstolos, capítulo dezoito, versículo três. Davi, antes de ser rei, foi pastor de ovelhas, músico e guerreiro, como se observa em Primeiro Livro de Samuel, capítulo dezesseis, versículos dezoito a vinte e três. José, no Egito, passou por diversas funções administrativas até se tornar governador e gestor da produção de alimentos durante um período de grande crise, conforme narrado no livro de Gênesis, capítulos trinta e nove ao quarenta e um.

Nesse mesmo sentido, destaca-se Lídia, comerciante de púrpura, que conciliava o trabalho no comércio têxtil com a hospitalidade, abrindo sua casa para reuniões cristãs, demonstrando capacidade de gestão e múltiplas responsabilidades, conforme descrito em Atos dos Apóstolos, capítulo dezesseis, versículos quatorze e quinze. Outro exemplo expressivo é o de Neemias, que exercia a função de copeiro do rei, cargo de extrema confiança, e posteriormente liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém, assumindo papel político e administrativo fundamental, como registrado em Neemias, capítulo um, versículo onze, e capítulo dois, versículo cinco.

Somam-se ainda Moisés, que foi pastor de ovelhas no deserto antes de se tornar líder e legislador do povo de Israel, conforme relata o livro de Êxodo, capítulo três, versículos um a dez, e Priscila, que, juntamente com Áquila, atuava na fabricação de tendas e também no ensino e apoio às comunidades cristãs, conforme registrado em Atos dos Apóstolos, capítulo dezoito, versículos dois e três, e capítulo dezoito, versículo vinte e seis. Esses exemplos evidenciam que a multiplicidade de funções sempre esteve presente na experiência humana narrada pela Bíblia.

Esses relatos mostram que a diversificação de atividades e fontes de sustento sempre foi uma estratégia de prudência e resiliência. Em um país como o Brasil, marcado por inflação, desemprego e incertezas econômicas, a sabedoria bíblica se aplica de forma clara. A crise atual exige adaptação, planejamento e a busca por mais de uma alternativa de sobrevivência.

Assim, o conselho de Eclesiastes, capítulo onze, versículo dois, permanece plenamente atual. Não se trata apenas de repartir bens, mas de espalhar esforços, desenvolver habilidades e preparar-se para o imprevisto, pois, como ensina a sabedoria popular em sintonia com o texto bíblico, não se pode colocar todos os ovos em uma única cesta. A Bíblia, com sua sabedoria atemporal, continua a ensinar que quem age com prudência, administra bem seus recursos e desenvolve diferentes habilidades está mais apto a enfrentar os desafios dos tempos difíceis.

Ronaldo Morenno é reverendo, professor registrado no Ministério da Educação e jornalista profissional (MTB 0096132/SP).